Pioneira levou papel picado aos estádios, deu apelido a um ídolo e vai virar enredo de samba no Carnaval 2027
Em 1956, Dulce Rosalina assumiu o comando da Torcida Organizada do Vasco (TOV) e se tornou a primeira mulher a liderar uma torcida organizada no Brasil. Setenta anos depois, a homenagem segue viva em São Januário: antes de cada jogo, uma faixa com os dizeres “Dulce Eterna” é estendida no centro da arquibancada, onde ela costumava ficar com a torcida.

A PRIMEIRA-DAMA DAS ARQUIBANCADAS
Nascida em 1934, no Rio de Janeiro, Dulce Rosalina Ponce de León comandou a TOV por 20 anos, de 1956 a 1976. Depois, fundou outra torcida vascaína, a Renovascão.
A primeira missão à frente da organizada foi fora das arquibancadas: arrecadar 200 mil cruzeiros, moeda da época, para ajudar na construção de duas quadras de basquete em São Januário. Corrigido pela inflação, o valor equivale a cerca de R$ 182 mil hoje, segundo a calculadora do Banco Central.
Nos primeiros anos, as reuniões da torcida aconteciam no apartamento dela, no Rio Comprido. “Basta ser vascaíno para ser meu amigo”, disse em entrevista à Revista do Esporte, em 1959.
UMA NOVA FORMA DE TORCER
Dulce mudou o jeito de torcer nos estádios brasileiros. Foi ela quem levou o papel picado e as serpentinas para as arquibancadas e ajudou a popularizar as baterias nas torcidas.
A fama ultrapassou o Vasco. Em 1960, ela venceu um concurso da Revista do Esporte que a elegeu a maior torcedora do futebol brasileiro. Em 1980, uma festa na Sede do Calabouço celebrou sua trajetória à frente das torcidas e a chamou de “Primeira-dama das arquibancadas”.
O PEQUENO PRÍNCIPE
A relação com o clube ia além dos jogos. Dulce frequentava treinos e eventos e tinha contato próximo com jogadores e dirigentes. Foi dela o apelido de “Pequeno Príncipe” dado a Geovani, meia que brilhou com a camisa do Vasco nos anos 1980 e foi eleito o melhor jogador do Mundial Sub-20 de 1983, conquistado pela seleção brasileira. O ídolo vascaíno morreu em maio deste ano.
O apelido nasceu em 1983, no aeroporto, na volta do meia após o primeiro título mundial da seleção brasileira sub-20. Em entrevista ao Museu da Pelada, em 2020, Geovani lembrou o momento: “Pequeno eu sei que sou, agora príncipe foi ela que me intitulou”.



MULHER EM UM ESPAÇO DE HOMENS
Dulce ocupou a liderança de uma torcida organizada em uma época em que as arquibancadas eram dominadas por homens. Ela inspirou outras mulheres a enxergar o estádio como um lugar de pertencimento.
Essa é justamente a mensagem do enredo que a G.R.E.S. União Cruzmaltina, escola de samba ligada ao Vasco, levará para a Série Bronze do Carnaval 2027: “Dulce Rosalina: a mulher que vestiu coragem e presidiu a paixão”. O desfile vai tratar da luta da torcedora contra o preconceito e da abertura de caminhos para mais mulheres em cargos de liderança no esporte.
LEGADO PRESERVADO
Dulce morreu em janeiro de 2004, por problemas cardíacos. No mesmo ano, ganhou uma rua com seu nome, a poucas quadras de São Januário.
Fotos, documentos e as colunas que ela escrevia para o jornal Voz de São Januário, chamadas “Cantinho da Torcida Organizada”, fazem parte do acervo do Centro de Memória do Vasco.
Em entrevista ao ge, o coordenador do espaço, Walmer Peres, resumiu a importância desse registro: “Preservar Dulce Rosalina é preservar também a memória da torcida vascaína”.
Foto de capa: Reprodução/Internet
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